segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Superlotação no cemitério de Limoeiro do Norte

Em vários municípios do Interior, os cemitérios estão abandonados e sem condições de receber os falecidos. Os túmulos do Cemitério de Nossa Senhora do Carmo, em Limoeiro do Norte, recebem, dos proprietários, a sua manutenção individual. A Prefeitura faz limpeza de todo o local regularmente.
Sem discutir para onde se vai - nem o que se vai - após a morte, o certo é que o destino de qualquer um biologicamente comprovado morto é um só: o cemitério, o fiel depositário dos restos mortais.
Toda cidade tem um, visto ser um direito de todo cidadão. Mas em muitos casos é onde a lei se encerra. Em vários municípios do Interior esses locais estão abandonados, mas superlotados. No bicentenário cemitério de Limoeiro, que só este ano ganhou nome, não há mais espaços para novos túmulos. Pessoas são enterradas em cima dos restos mortais de parentes outrora falecidos. Quem não tem vaga é enterrado nos corredores entre as covas. Não é feito registro escrito dos corpos enterrados. Não fosse o intacto jeitinho brasileiro, seria preciso dizer que a situação é de "não ter onde cair morto", literalmente.
Mas isso para a população mais pobre, visto que para os mais favorecidos há cemitério particular e, por tanto, com preço para se depositar os restos mortais dos entes queridos. E quem não tem um centavo para enterrar o parente? "Aí a gente tem que dar um jeito, não vai deixar morto em cima da terra, né?", afirma Francisco Casimiro, coveiro do Cemitério Público Nossa Senhora do Carmo, o principal de Limoeiro do Norte. O jeito que se dá é um só: enterrar os corpos nos corredores entre os túmulos. Essa prática existe há pelo menos duas décadas e, com exceção da entrada principal, não há mais intervalos de espaços entre as sepulturas. O serviço dos coveiros é gratuito - são pagos pela Prefeitura Municipal - mas quando se precisa dar um "jeitinho" para enterrar defunto cuja família não tenha terreno, eles "ganham" até R$ 40,00, "o da cachaça".
Não existem mais novas vagas no cemitério de Limoeiro do Norte. Pessoas são enterradas em cima dos restos mortais de parentes outrora falecidos. E quem não tem vaga é sepultado nos corredores entre as covas.
Grades violadas
Algumas pessoas ouvidas pela reportagem, que disseram ter parentes enterrados no local, alegam que as grades dos túmulos foram violadas e não têm mais certeza se o parente está mesmo enterrado no espaço onde, em todo Dia de Finados, são colocadas velas. Os coveiros alegam que o serviço de limpeza, também realizado pela equipe de limpeza pública, provoca a retirada das grades de ferro para arrancar o mato de cima das covas, "aí eles jogam as grades lá no fundo e a gente pede para colocarem de volta, mas não colocam, aí quando dá fé, cadê que sabe onde é que ficava a grade?", comenta.
São dois servidores públicos municipais fazendo o trabalho de vigilância de 8 às 18 horas. O que acontece depois desse horário os coveiros só tomam nota na manhã do dia seguinte: lápides violadas, imagens roubadas, castiçais destruídos e vestígios de sexo, consumo de drogas e rituais de magia negra.
O problema mais sentido pela população é mesmo a falta de vagas no cemitério público. Mesmo as famílias que têm terreno ainda passam por constrangimento em caso de mortes em curto período de tempo. Casimiro citou como exemplo um caso de um idoso que faleceu e, alguns meses depois, foi a vez da viúva, "então quando a gente cava ainda encontra o caixão do que morreu antes, aí como a família não quer enterrar ninguém, com menos de sete palmos do chão, tem que tirar os ossos, coloca o caixão da que morreu 'agora', e por cima coloca os ossos do que a terra não 'comeu' direito", explica.
A terra "come" porque uma das práticas nos sepultamentos ainda é colocar o caixão em valas feitas apenas de terra - mas já é recorrente o uso de placas de cimento para "engavetar" o caixão. A professora e ambientalista Iolanda Castro conta que, há 16 anos, para enterrar um parente foi preciso desenterrar um caixão, de identidade ignorada, que tinham enterrado entre os túmulos, impedindo a abertura da "gaveta" da sepultura reservada ao familiar.
Sem registro
Há outro agravante: o cemitério de Limoeiro não tem registro dos defuntos, um livro ou ao menos caderno de entrada dos corpos ali enterrados. Então, os cartórios de ofício registram que é verdade e dão "fé" das certidões de óbito, mas não há documentos que comprovem que o morto foi enterrado no Cemitério de Nossa Senhora do Carmo. Em caso hipotético da necessidade de exumação de um corpo - com fins criminais - caso não haja identidade certa na lápide, ou esta seja violada, não há nada que ratifique a entrada de um dado corpo. A reportagem ouviu a Prefeitura Municipal de Limoeiro, que diz saber da superlotação, e que há um novo cemitério em planejamento, mas ainda não há data para seu funcionamento.
SEM VERBA
Novo espaço não tem data de instalação
As cidades cresceram, aumentou o número de habitantes e, ainda que o crescimento vegetativo (a diferença do número de nascidos e mortos) tenha praticamente se mantido, é fato que onde há doenças, acidentes e violência há considerável índice de mortes. O cemitério Nossa Senhora do Carmo, no município de Limoeiro do Norte, não passa mais do que três dias sem receber um novo defunto, mesmo não havendo mais vagas.
Este local é o principal de um total de sete cemitérios públicos espalhados principalmente pela zona rural - os outros são menores, atendendo a pequenas comunidades distantes. Num terreno comprado pela Prefeitura Municipal, na localidade de Sítio Socorro, será instalado o novo cemitério municipal, mas não há data.
De acordo com José Lins Guerra, conhecido por "Eliezer", secretário municipal de Infra-Estrutura e Desenvolvimento, o espaço para o novo cemitério já foi delimitado, mas que a Prefeitura ainda está tentando alocar recursos para sua execução e manutenção.
"O prefeito João Dilmar comprou o terreno, mas ainda estamos trabalhando para ver como isso vai se dar", afirma Eliezer. O secretário estima em mais de R$ 200 mil o custo para se operacionalizar o referido cemitério.
Uma das sugestões feitas por populares à Prefeitura, para amenizar o problema imediato, é de uma parceria público-privada. Em miúdos, a administração pública arcar com a despesa do túmulo de famílias carentes - e que não tem 'terreno' no cemitério municipal - em um cemitério particular, existente há oito quilômetros do local público.
Manutenção
Enquanto se aguardam providências, o Cemitério de Nossa Senhora do Carmo recebe defuntos e, regularmente, serviço da equipe pública de limpeza. Mas, cabe aos proprietários dos túmulos a sua manutenção individual, que geralmente acontece só uma semana antes do Dia de Finados, dia 2 de novembro.
Um tipo de limpeza não é possível ser feito: a provocada pelo necrochorume, dos restos mortais em contato direto com o solo e em movimento descendente. O local é monumento à memória, mas o corpo humano em desintegração origina um ecossistema com artrópodes, bactérias, micro-organismos patogênicos capazes de destruir matéria orgânica e, em contato com o lençol d´água subterrâneo (caso de Limoeiro, conforme a geógrafa e ambientalista Iolanda Castro), contamina o meio ambiente e, dessa forma, chega ao homem vivo, daí a importância de uma localização estratégica para esses lugares.
Ainda vistos com preconceito, ignorância ou "medo", os cemitérios são um dos principais monumentos históricos de qualquer cidade. Bonito ou feio, bem cuidado ou não, guardam informações econômicas, sociais e culturais de uma população. A arquitetura dos túmulos de Limoeiro de um século atrás, em forma de torre - para quem podia construir um, diga-se - difere da atual, de construções mais baixas e quadradas. Lá estão os restos mortais de padre Joaquim de Menezes e uma série de personalidades históricas da região.
CUSTO
200 mil reais é o custo mínimo estimado para a construção do novo cemitério no município de Limoeiro do Norte, localizado no Vale do Jaguaribe.
Mais informações:
Prefeitura do município de Limoeiro do Norte
Vale do Jaguaribe
(88) 3423.1165
Fonte: Diário do Nordeste / Reportagem e Fotos: Melquíades Júnior

Um comentário:

Magno disse...

Bom dia Alex, amigo gostaria de saber se ai ou em Russas tem posto de gás natural veicular? é que estarei indo para sua cidade fazer o concurso do TRT e gostaria de saber dessa informação. Atenciosamente: Magno Marques - magnomarques@gmail.com