domingo, 27 de setembro de 2009

Inclusão social: Protagonismo juvenil no sertão

Há 20 anos surgia a Associação Unidos Para o Progresso, em Espinho, para não depender só das políticas públicas.
Numa comunidade margeada pela reta asfáltica da BR-116 e pelo Rio Banabuiú tem sol quente, muita terra seca, e mais de 500 famílias distantes da sede do município e, por isso mesmo, conscientes de que precisam colher aquilo que lá for plantado. E que é preciso mais que uma igreja e uma pracinha pública para "distrair" a juventude, notadamente em situação de vulnerabilidade social. É preciso sempre que haja mais incentivos para despertar, nos jovens, uma consciência de que cada um deles é protagonista da sociedade.
Conhecida internacionalmente desde a visita de portugueses de uma cidade com o mesmo nome, a localidade de Espinho, em Limoeiro do Norte, tem grupos de jovens e suas famílias engajadas em projetos que levam arte, educação e cultura com uma principal finalidade: a inclusão social.
Alunos participam de aulas de dança e mostram o seu talento por meio das artes. Há 20 anos, o projeto da associação beneficia crianças e jovens por meio de apadrinhamento.
O nome da idéia que virou realidade para a comunidade já diz a que veio: Associação Unidos Para o Progresso, que surgiu duas décadas atrás, numa época em que a localidade não estava bem servida dos serviços públicos municipais. Hoje tem posto de saúde, escolas, igreja, comércios, mas também não depende só disso. "Uma comunidade não pode depender só de um governo estadual ou de uma prefeitura", afirma Dora Farias de Brito, coordenadora do projeto. De outra forma, seria assistencialismo. "É preciso andar com as próprias pernas", colocou a educadora.
Mas se o garoto Caio Henrique estivesse ouvindo a conversa da "Tia Dora", diria que é preciso "pular" com as próprias pernas. Tem 10 anos e faz aulas de ginástica, com direito a todos aquele saltos que a mãe, na hora da apresentação, fecha os olhos de medo. Diz que é melhor fazer isso porque se ficar na rua "vou aprender a ser ruim". Para ele, os projetos são a nova perspectiva para todos da comunidade. Quando é dada aos governantes do Estado Democrático de Direito a responsabilidade de cuidar dos cidadãos, estes cobram daqueles os direitos sócio-educacionais; quando é da democracia todos participarem, além dos seus representantes, os cidadãos cobram de si próprios os direitos e deveres. E assim a comunidade faz há 20 anos. O resultado é Estado e setor privado engajados na mesma luta. A récua de meninos encontrados em Limoeiro do Norte tem ampliado as possibilidades de sonhar, e realizar.
A associação atende a várias comunidades, não ficando limitada somente a Espinho. Integram a lista de beneficiadas as comunidades de Danças, Canafístula, Córrego do Feijão, Malhada, Gangorra e Setor S, o que se traduz em milhares de famílias atingidas direta e indiretamente. E não falta o que fazer: aulas de música, de dança, escolinhas de esporte, atividades circenses e oficinas de idéias, como o artesanato e, mais recentemente, de comunicação de rádio. A mídia é protagonizada pelos próprios jovens como instrumento de mobilidade social. É uma gama de opções para todos os gostos e, o que é melhor, aptidões que começam a ser despertadas de acordo com o talento dos jovens.
Com a coordenação do radialista José Luis, a moçada elabora programas de rádio, define as pautas, faz as entrevistas, e a locutora Andreza Kelly, de 11 anos, pode mandar desde um beijo para a mãe que está em casa a um lembrete para o gestor municipal consertar a passagem molhada que liga ao centro da cidade, danificada pelo último período chuvoso.
"A escola é uma referência de educação formal. E nós, de que forma podemos ser uma referência de inclusão social?", questiona Dora Farias, já que "não adianta falar de cidadania sem uma ferramenta que agregue". A ginástica tem valido para Lilian Costa de Assis, de cinco anos, como a música para Mayara dos Santos Silva, de 12 anos, que diz que "não sabia que podia fazer". Ela aprendeu a tocar violão, mas também faz parte dos "arcanjos" do professor-ginasta Chiquinho Chaves, que prepara com os meninos o espetáculo "Corpo". Segundo o professor, quando não estão nas escola, os meninos estão fazendo alguma coisa na Associação. Na rua não, para não aprender a "ser ruim". Consumo de drogas, vício e a conseqüente violência física, psicológica e social, envolvendo cada vez mais os jovens do Interior - notadamente pelo "crack", são a "coisa ruim" a que se referem.
Há 22 anos na comunidade, a Associação Unidos Para o Progresso é uma dessas entidades conveniadas ao Fundo Cristão para Crianças (FCC), que atua com diversas associações do país, no regime de apadrinhamento (doadores nacionais e internacionais repassam uma quantia em dinheiro, que complementa o orçamento das atividades). Existem famílias muito envolvidas no projeto social. Que o diga os irmãos Lilian, Letícia e Eduardo, que fazem ginástica e participam da oficina de rádio. A mãe, Girlene Costa, apóia tanto as atividades que decidiu fazer o curso de teclado.
Na última sala da associação visitada pela reportagem, sete meninas entre cinco e sete anos de idade estão vestidas de bailarinas. A professora não pode comparecer, e sem que "gente grande" alguma improvisasse uma exibição, a garotinha Vitória Santos Silva, de cinco anos, fez o repórter só ver e ouvir: "segurem as mãos", disse às outras, em ciranda e dando ordem para os movimentos saltitantes de pernas e braços; "aquela música que a tia ensinou: "sou feliz/ por isso estou aqui/ também quero viajar nesse balão... super fantástico...".
Crianças participam de projetos culturais e artísticos, como mecanismo para proporcionar melhor qualidade de vida aos moradores da comunidade de Espinho, em Limoeiro do Norte.
DEMANDA POPULAR
Associação atende a 450 crianças
Cerca de 450 crianças de 225 famílias fazem a Associação Unidos para o Progresso, na localidade de Espinho, neste município. São atendidas as comunidades de Espinho, Danças, Canafístula, Córrego do Feijão, Malhada, Gangorra e Setor S. Junto às parcerias públicas, a entidade é sustentada com recursos do Fundo Cristão para Crianças (FCC), que, há 42 anos no Brasil, tem atuado em comunidades urbanas e rurais com crianças, adolescentes e famílias em situação de risco, em parceria com 103 entidades conveniadas no País.
A associação no Espinho, que atende a pessoas de cinco a 20 anos, tem um retrato de um recorte social da comunidade, também comum em vários lugares do Interior. Baixa renda, evasão escolar, gravidez precoce, "mas a gente tenta fazer no nosso trabalho uma mudança, senão no mundo, na nossa pequena realidade, e esse sentimento de 'ser cidadão' que a gente tenta colocar nas famílias desses jovens, envolvendo ferramentas que tornem o conhecimento atrativo, chamando os pais para participarem, e para saberem usar de forma responsável as doações dos padrinhos. Se a criança precisa de óculos de grau, 'mãezinha a gente dá uma parte', e o que a senhora pode dar?", exemplifica Dora, alertando para a contribuição que a família tem que dar na execução das atividades, como uma responsabilidade natural. "Do contrário, ter-se-ia o risco de assistencialismo".
Ainda em Limoeiro do Norte, outro projeto apoiado pelo Fundo Cristão para Crianças é o Projeto Paz e União, no bairro Antônio Holanda, e que exerce atividades de protagonismo juvenil. Nos dois casos, jovens que um dia foram apadrinhados participam das atividades de monitoria, ensinando aos outros o que já aprenderam no próprio grupo. E a difusão do conhecimento e das experiências obtidas é também a intenção das oficinas de rádio comunitário.
Divididos em dois grupos, os mais velhos pesquisam e debatem sobre políticas públicas de juventude. As crianças aprendem sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e mobilização cidadã. "O Brasil precisa de uma educação de reflexão", resume "tia Dora". Qualquer pessoa, organização ou empresa pode contribuir nos trabalhos por meio de doações ou do apadrinhamento, com contribuição de R$ 37 por mês.
O que você acha da participação nos projetos?
"Toco violão e faço ginástica, e o tempo que não estou na escola é tentando aprender mais o que eu faço aqui".
Leandro Costa, 13 anos – Estudante
"Fico feliz de ter minhas filhas aqui. Elas são muito espertas, enérgicas, e aqui uma faz balé, outra ginástica e violão".
Liduína Maria, Mãe de alunos e dona-de-casa
"É uma oportunidade de crescimento, de inclusão social e exercício de cidadania. Ajuda na auto-estima".
Dora Faria de Brito, Coordenadora do projeto
Mais informações:
Associação Unidos para o Progresso
Espinho - Limoeiro do Norte
(88) 3447.1022
Informações: Diário do Nordeste / Reportagem e Foto: Melquíades Júnior

Um comentário:

lana disse...

PARABÉNS A TODOS QUE FAZEM A ASSOCIAÇÃO. FICO MUITO FELIZ PELO SUCESSO DE TODOS EQUIPE TÉCNICA, CRIANÇAS E FAMÍLIAS.