segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Associação de Gays promove campanha contra homofobia em Limoeiro do Norte

Mesmo com lei municipal em favor da causa homossexual, gays de Limoeiro do Norte ainda sofrem preconceito.
Dois homens ou duas mulheres, que fazem um casal, pretendem adotar uma criança que um casal heterossexual deixou "na rua". A notícia estava estampada no jornal, enquanto o locutor de rádio, em seu comentário, descarrega que isso "é o fim dos tempos", "quem será o papai e a mamãe?", seguido de julgamentos na mesma linha; uma professora sugere para um aluno adolescente, na frente da turma, que pare os "trejeitos" afeminados e vá "virar homem". Os casos de homofobia, em aversão à homossexualidade, aconteceram em Limoeiro e atiçaram a indignação de grupos de apoio aos gays, que três anos após a aprovação de uma lei municipal seguem na campanha contra a discriminação.
O preconceito contra gays e lésbicas é recorrente em qualquer parte do mundo, a diferença tem sido na resposta às situações "constrangedoras": reivindicação de direitos. A Associação de Apoio aos Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transgêneros (AAGLBTT), decidiu pregar nas ruas um cartaz com a maior de suas conquistas até agora: Lei Municipal 1.334, de 2007, "veda a discriminação sexual em Limoeiro do Norte", e institui o Dia Municipal da Consciência Homossexual, sempre no primeiro sábado do mês de julho. São raros os municípios brasileiros com uma lei desse gênero, mas entre o dever e o direito há uma enorme brecha: falta de respeito. A Câmara Municipal de Limoeiro deu direito à AAGLBT de se considerar uma ONG legítima para defender a causa que prega.
"Não queremos que as pessoas façam mais do que o que fariam com qualquer outro sujeito, que respeitem, não se incomodem com a vida alheia, e que somos normais. Numa palestra que dei havia um grupo homofóbico, perguntei porque se incomodavam tanto comigo, é essa bolsa chique que tenho e saio rebolando? Saiam do armário, gritem, façam o que estou fazendo, que é ser feliz. A liberdade e a felicidade incomoda as pessoas. O homossexual é feliz. As pessoas que se sentem incomodadas viram homofóbicas", afirma o cabeleireiro Arízio Barros, presidente da AAGLBTT. Para ele, a "saída do armário" é uma condição subjetiva: "cada um sabe a vida que tem, e anunciar sua homossexualidade é uma decisão individual".
Arizio Barros, da AAGLBTT, prega cartaz com lei municipal em favor dos homossexuais em Limoeiro. (Foto: Melquíades Júnior)
Direito sexual
O militante gosta de falar mais em "direito sexual", usando o critério de que ninguém é orientado à afetividade heterossexual ou homossexual. "A gente nasce assim", completa.
A lei 1.334 foi pregada em escolas, faculdades e repartições públicas e comerciais de Limoeiro. Em alguns casos, após ser pregado o cartaz o dono do estabelecimento retirava. A AAGLBTT tem acompanhado casos de denúncias de homofobia na região jaguaribana. De acordo com Arízio Barros, em 2009 um travesti foi morto por três adolescentes; em Morada Nova, um homem foi morto dois dias após ter anunciado sua homossexualidade. "Esses casos se repetem", lamenta Arízio.
A Associação dos Gays, Lesbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais de Limoeiro existe há cinco anos e possui 238 associados no Vale do Jaguaribe, sendo 183 de Limoeiro. Cada membro tem direito a 20 preservativos, repassados mensalmente pela associação, que tem o apoio da Secretaria Municipal da Saúde. "A primeira-dama Célia Costa Lima é nossa madrinha, pois tem dado forte apoio a todas as nossas atividades", ressalta Arízio. No primeiro sábado de julho, quando se comemorou o dia da consciência homossexual, foram homenageados o artista plástico Márcio (depois Márcia) Mendonça (em memória), e o umbandista José de Etelvina, o primeiro limoeirense a se assumir gay, na conservadora Limoeiro dos anos 60.
Todos os anos, a Associação participa de eventos sociais, fazendo doação de cestas básicas, prestando serviços como corte de cabelo e entretenimento com palhaços. Os casos de homofobia relatados no início da reportagem são acompanhados pelos militantes. A professora e a escola em que houve a agressão verbal a um estudante receberão a visita do Conselho Estadual de Educação, que acolheu a denúncia da AAGLBTT.
FIQUE POR DENTRO
Lei municipal
No dia 20 de fevereiro de 2007, a Câmara Municipal de Limoeiro do Norte aprovou a Lei 1.334, que cria o Dia da Consciência Homossexual, depois programada para cada primeiro sábado de julho. O trabalho teve autoria do presidente da Câmara, vereador Carlos Marcos "Barão", com aprovação por unanimidade, e sancionada pelo prefeito municipal João Dilmar.
Mais informações:
Associação de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais de Limoeiro do Norte (AAGLBTT).
(88) 9234.2545
Fonte: Diário do Nordeste / Reportagem e Foto: Melquíades Júnior

Um comentário:

Carlos, Carlinhos, Getúlio disse...

Não é "vetar", em vez de "vedar" ? Seja como for, apoio essa lei, não excluindo, porém, a urgente necessidade de educação. A meu ver, as escolas devem ter acompanhamento sistemático, mesmo as particulares, uma vez que o preconceito e a discriminação homofóbicos atinge à sociedade de um modo geral; além, disso, não há idade melhor para ensinar alguém de algo, do que a infância. Conheço projetos de contação de história em que a homoafetividade, homossexualdidade ou como quer que se chame, é abordado de forma familiar e natural, como de fato deveríamos encarar. Eu, por exemplo. fui vítima e agressor homofóbicos, uma vez que nunca recebi uma orientação de como entender a minha ou a homossexualidade alhiea. Bullying é como chamam hoje, e dele fui vítima, embora não consciente, de professores e colegas, nos anos em que estudei na Escola Normal. Como não entendia, também assediei moralmente alguns colegas, meio para que ser aceito pelos que me discriminavam. Via professores veladamente compactuando com tal prática, e reafirmando a lógica homofóbica, e nunca entendi isso muito bem, até que por força própria, li sobre o assunto, entendi e me aceitei como gay. É um fato, porém, que infelizmente ainda é tabu falar sobre a homossexaulidade na sociedade limoeirense. Esse preconceito nojento fez com que nunca valorizássemos, mesmo post-mortem, nossa maior artista. Quantos outros serão esmagados para que Limoeiro do Norte respeite a todos com igualdade, liberdade e fraternidade? Para os católicos e evangélicos, não foi Jesus quem falou em Amor incondicional entre as pessoas? E incondicional porventura não significa sem condições, de raça, gênero, ou mesmo o sexo da pessoa com quem me caso? Aos políticos e juristas, nós homossexuais não pagamos os mesmo impostos que os heterossexuais, e, por isso, não deveríamos ser assistidos pelos mesmos direitos? Aos intelectuais, eu pergunto porque o silêncio que há décadas contradiz seu saber acumulado e os abusos de uma sociedade tão cruel. Aos professores, eu pergunta se les estão educando cidadãos ou linchadores. A você, que me lê, pergunto se, em último caso, não terá todo homem e toda mulher, o direito à felicidade, sem que a sexualidade dela implique no caráter. O que queremos para o futuro? Uma sociedade livre e feliz ou uma repetição de Auscheitz, em nome da "moral e dos bons costumes".