Transferência do Encontro Mestres do Mundo de Limoeiro para Juazeiro do Norte causa polêmica entre os moradores da região.

Polêmica à vista. “Fomos tomados de assalto. A população de Limoeiro do Norte é a principal vítima da ausência do festival”, foi o que afirmou o prefeito João Dilmar, de Limoeiro do Norte, sobre a retirada do Encontro dos Mestres do Mundo da cidade, que sediava o evento desde o surgimento, em 2005.
Mais do que o fator surpresa da notícia da transferência para Juazeiro foi o lamento, dos produtores culturais e empreendedores turísticos da região jaguaribana, da fuga de um evento que estava em processo de consolidação para a realidade de Limoeiro e municípios vizinhos. “Por que o Cariri, que já é um celeiro natural de mestres da cultura? A idéia de descentralização das políticas públicas culturais volta à estaca zero”, reclama o produtor cultural e músico Eugênio Leandro.
Quando surgiu o Encontro dos Mestres do Mundo, a primeira pergunta era sobre o que era o evento. Depois que mestres da cultura tradicional popular daqui e de vários estados começaram a exibir os trabalhos, dançar, apresentar-se e dialogar com os jaguaribanos, a boa acolhida foi inevitável pelos limoeirenses, que o diga a mestra do reisado Margarida Guerreiro, mesmo doente fez questão de dizer à família que “quero ir pro Limoeiro”. Entre 2003 e 2005, as principais lembranças que recorriam à mente de qualquer um visitante ou distante que ouvisse falar na cidade, lembraria da Chacina de Limoeiro – sete vítimas aleatórias, ceifadas com tiros na cabeça e orelha posta na boca – e do assassinato do radialista Nicanor Linhares, caso de pistolagem que ganhou repercussão internacional e teve reclame da Organização Interamericana de Imprensa.
“Mas Limoeiro não é isso, esse mar de violência, apesar dessas tragédias, essa é a realidade vista como predominante para quem está de fora”, afirmou a então secretária da Cultura do Estado, antropóloga Cláudia Leitão, para justificar a intenção de “descentralização” das ações culturais que não se limitassem ao já culturalmente concentrado Cariri. De 2005 a 2007, a cidade inseriu o encontro dos mestres no seu calendário cultural, sempre entre os meses de agosto e setembro. Era a oportunidade para o ator e produtor Frank Lourenço, de Russas (apenas 30 km distante), encontrar sujeitos culturais, para trocar figurinhas e até conseguir levar seu grupo teatral Oficarte a outras paragens. Antonio Manoel, o “Toinho”, atual secretário da cultura em Quixeré, arrumava seus boi-bumbá e os bonecos gigantes que confecciona para desfilarem na passarela cultural que se formava em Limoeiro durante seis dias de evento.
Titulada mestre da cultura pelo Governo do Estado, dona Lúcia Pequeno é uma das artesãs mais populares da região do Vale do Jaguaribe. (foto: Neysla Rocha)Região de conhecido desenvolvimento cultural – daí a alcunha de Princesa do Vale – a cidade de Limoeiro do Norte possui faculdades em atividade, além de poetas, historiadores, escritores em plena criação; e pelo menos dois mestres da cultura, antes desconhecidos dos próprios munícipes, eleitos pelo Governo do Estado: Lúcia Pequeno (artesanato em barro) e Antônio Nogueira (Boi-Bumbá). “Então é toda uma realidade cultural, que a cidade começava a absorver com o Encontro dos Mestres do Mundo, que quando estava enraizando, foi tirada da gente. Eu reclamei ao Cid Gomes, que tinha ficado muito insatisfeito com o secretário da Cultura Auto Filho, por ter tirado o Encontro sem ao menos perguntar o que a gente achava disso. O secretário Auto veio com conversa de que foi uma determinação do Ministério da Cultura. Eu não acredito nisso de maneira alguma, pois o Ministério foi consultado. Foi ele mesmo, o secretário, que, não sei o motivo, ou por pirraça mesmo, tomou o Encontro dos Mestres do Mundo da gente”, afirma o prefeito João Dilmar, acrescentando que “não sou eu que estou reclamando como político, é a população do Vale do Jaguaribe, era o maior evento cultural que a região tinha, que nos foi roubado, essa é a verdade”, completa.
Com o mesmo tom de indignação, o músico Eugênio Leandro defende que o Cariri “já é um grande celeiro de Mestres da Cultura. Esses mestres gostam quando saem do Cariri, veêm para a região jaguaribana. E foi uma oportunidade de os nossos mestres locais conhecerem essa movimentação toda. O braço da cultura, e das políticas culturais, estava alcançando o Vale, de repente volta tudo como era antes. É preciso potencializar outras regiões do Ceará, e a população de Limoeiro havia conseguido legitimar os Mestres do Mundo, e olhe que a legitimação cultural demanda esforço, agora a cultura do Estado volta a se resumir a Fortaleza e o Cariri, é isso?”. Ainda em Limoeiro, o setor turístico rico em hotéis e pousadas – ainda que a cidade não seja praiana nem de romaria religiosa – lamenta a saída do único evento que, todos os anos, representava a alta estação de hospedagem. E para não ficar no desgosto, Limoeiro do Norte sediará pela primeira vez, no próximo mês, o Festival Nacional de Trovadores e Repentistas.
Fonte: Diário do Nordeste / Reportagem: Melquíades Júnior
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